OPINIÃO – Bra-Pel: a Guerra Fria pelotense
Por Mateus Kerr · publicada em

A Guerra Fria foi um período histórico compreendido entre os anos de 1945 e 1991, no qual os Estados Unidos e a extinta União Soviética travaram intensa disputa para ver quem conquistaria a hegemonia mundial. O movimento foi assim denominado em função de uma razão peculiar: mesmo depois de tantos anos, não houve o enfrentamento bélico direto entre as duas superpotências. Tiradas as gigantescas proporções, venho a apelidar a história recente do clássico Bra-Pel de “a Guerra Fria Pelotense” por um motivo: aqui também não há o enfrentamento entre as duas forças dentro das quatro linhas, com toda a rivalidade existente entre as duas nações sendo discutidas fora do campo de jogo.
Na Guerra Fria, o enfrentamento de linhas ideológicas distintas fazia com que americanos e soviéticos lutassem para provar uns aos outros qual era o melhor pensamento de vida. O mesmo ocorre com xavantes, que se julgam “a mais fiel, a massa, a maior”, e áureo-cerúleos, que se denominam “a torcida que mais cresce”. Tal como capitalistas e socialistas, as torcidas da cidade entram em um embate teórico para provar quem é melhor, o que envolve a corneta ao adversário, as histórias tiradas do fundo do baú, a torcida pelo insucesso alheio e muita disputa… nos bastidores.

Se na Guerra Fria o plano Marshall e a operação Washtub eram as estratégias utilizadas para ganhar terreno sem o enfrentamento direto com o adversário, na dupla Bra-Pel não é fato raro a disputa por jogadores e patrocinadores cobiçados pelo rival, embora Pelotas e Brasil não dividam espaço na mesma competição gaúcha desde 1998.

A Guerra Fria contava com a participação dos aliados do lado capitalista (EUA, Coréia do Sul, América do Sul e Europa Ocidental) e dos Socialistas (União Soviética, China, Cuba, Europa Oriental e Coréia do Norte). Os países que não apoiassem nenhum dos lados formavam um grupo bem menor, dos países não-alinhados, nos quais estavam inseridos Egito e África do Sul. Em Pelotas, quem não apóia a nação áureo-cerúlea ou a rubro-negra são os tricolores do Fragata. Mas até eles, uma minoria, se metem na disputa em alguns momentos.
A OTAN e o pacto de Varsóvia tinham por objetivo garantir o armamento das duas potências mundiais para o caso de um enfrentamento bélico direto entre elas. Nenhuma bala foi desperdiçada. Da mesma forma, Pelotas e Brasil brigam para se armar com os mais qualificados jogadores no restrito universo do futebol gaúcho, mesmo que nenhum deles venha a se enfrentar em campo. Sotilli, um dos maiores ídolos da história do Pelotas, é um exemplo: nunca jogou e talvez nunca venha a jogar o clássico Bra-Pel.

Tal qual na batalha travada por americanos e soviéticos, Pelotas e Brasil não firmaram nenhum acordo para que ambos não venham a se enfrentar. Muito pelo contrário: os rubro-negros queriam até propor um embate no terreno adversário. Daí a grande diferença para a guerra, já que no futebol, quando um não quer, dois não se enfrentam, enquanto na disputa bélica o país atingido tem a obrigação de revidar para defender-se do rival.
A Guerra Fria acabou no dia 31 de Dezembro de 1991, com a renúncia do então presidente soviético, Mikail Gorbachev, a separação do país e a disseminação da cultura socialista. Para isto foram necessários mais de 45 anos de forte confronto político. Diferente da guerra, onde alguém tem de perder para que o outro tenha a hegemonia, vejo na dupla Bra-Pel a necessidade da presença do adversário. Sem a rivalidade com o Brasil, o Pelotas não teria a grandeza que tem, e vice-versa.
A cultura Bra-Pel de secar o adversário e torcer contra é respeitável e até sadia quando tratamos de torcedores rivais, mas isto não pode se estender aos dirigentes… não sempre, pelo menos. Na Guerra Fria, depois de 45 anos, os soviéticos foram dizimados. A dupla Bra-Pel já não se enfrenta há quase cinco. Tomara que daqui a 40 anos nenhum dos nossos clubes tenha o mesmo destino da antiga União Soviética.
Não julgo aqui a decisão da diretoria áureo-cerúlea, que tem os seus motivos para ter recusado este amistoso proposto hoje, e eu entendo isso. Mas já está na hora do Bra-Pel voltar ao nosso cotidiano de alguma maneira. O clássico que consagrou Lambarí, Gilson Cabeção, Juarez e tantos outros tem a obrigação de fazer o mesmo com Sandro Sotilli, Tiago Duarte, Marcelo Moscatelli e tantos outros ídolos recentes da dupla. Jogadores que estão fazendo história na cidade de Pelotas, mas que podem encerrar as suas trajetórias futebolísticas sem ter o prazer de saber o que é disputar um clássico Bra-Pel…

Obs: Não estou expressando nenhuma preferência clubística com o texto. Apenas desejo ver o Bra-Pel de volta, já que ouço muitas histórias contadas pelo meu pai e, assim como muitos da minha idade, nunca tive a oportunidade de ver uma partida entre os dois times mais tradicionais da minha cidade natal.
Clubes citados
Publicada na primeira versão do site, no endereço redeesportiva.com.br/content/opiniao-bra-pel-a-guerra-fria-pelotense/
Para citar: Mateus Kerr. “OPINIÃO – Bra-Pel: a Guerra Fria pelotense”. Rede Esportiva, 14 de fevereiro de 2011. Disponível em https://redeesportiva.com.br/acervo/opiniao-bra-pel-a-guerra-fria-pelotense/