Coluna do Vinícius Guerreiro: como o Guarani criou dificuldades ao Brasil com superioridade numérica
Por Vinícius Guerreiro · publicada em


O jogo de futebol possui muitas semelhanças a um jogo de xadrez. Imagine o campo como um tabuleiro. Cada movimento de uma peça (jogador) gera um contra-movimento de outra peça adversária. O empate sem gols entre Guarani e Brasil, no último sábado (12), trouxe situações bem interessantes dentro desse tabuleiro.
O Bugre tinha uma peça que modificava o jogo a todo instante e que gerou ao Xavante grande dificuldade: o camisa 5, Deivid. A partir das movimentações dele, o Guarani conseguiu impor um princípio de jogo, a superioridade numérica.
O conceito é simples. A superioridade numérica visa incorporar mais jogadores em um determinado espaço de jogo que o adversário. Com objetivo de garantir maior número de apoios e automaticamente mais linhas de passes ao portador da bola.
Vídeo-análise da busca constante do @oficialguarani pela superioridade numérica a partir dos movimentos do volante Deivid, com técnico Hemerson Maria explicando a estratégia escolhida pelo @GEBrasilOficial para defender. pic.twitter.com/GnPet6FMWr
— Vinícius Guerreiro (@VGuerreiro) September 13, 2020
O que o Guarani fazia? Dentro do 4-3-3, Deivid era o volante à frente da defesa. Ele fazia dois movimentos, por vezes criava o 3 contra 2 na saída de bola ao retornar próximo dos zagueiros, e depois avançava às costas da primeira linha do Xavante (formada por Poveda e Matheus Oliveira). Esse segundo movimento gerava um efeito de superioridade numérica nos setores ofensivos. Pois com Deivid às costas da primeira linha, o Bugre colocava três jogadores por dentro diante de dois marcadores do Brasil (Bruninho e Simião). Para compensar essa inferioridade, Danilo acabava fechando por dentro para encaixar em um dos meias (Person ou Rangel). Assim, o lateral-direito do Guarani (Cristovam) avançava e os donos da casa criavam nova superioridade em cima de Alex Ruan, já que o ponta Sávio também ocupava o setor direto.
Como defender?
O técnico Hemerson Maria explicou na coletiva pós-jogo a situação de cobertor curto (o contra-movimento). Ele poderia encaixar Poveda ou Matheus Oliveira em Deivid, mas isso deixaria os defensores sempre em superioridade numérica na hora de sair jogando. Didi e Wálber possuem boa qualidade no passe e teriam ainda mais espaço para construir.
A alternativa foi manter o 4-4-2 e aumentar a pressão nos zagueiros do Guarani. Isso funcionou nos 15 minutos finais do primeiro tempo. É claro que um Brasil menos físico e intenso na pressão – devido à ausência de Sousa – beneficiou o estilo de jogo do Guarani, mas é preciso destacar a boa mecânica que o Bugre apresentou. O time paulista conseguia tirar a bola da pressão com qualidade. Isso é mérito.
O que eu quero mostrar com essa coluna? É que os principais movimentos do Guarani não estavam com a bola, e, sim, sem ela. Deivid muitas vezes não recebeu o passe nas costas da primeira linha, mas gerou dúvidas na marcação do Brasil e fixou adversários, ocasionando a superioridade numérica. O olhar além da bola é tentar entender os movimentos das peças no tabuleiro de grama e analisar se funcionou ou não. Mesmo um jogo sem gols nos proporciona um bom espetáculo, basta saber para onde olhar.
Clubes citados
Publicada na segunda versão do site, no endereço www.redeesportiva.com.br/gremio-esportivo-brasil/coluna-do-vinicius-guerreiro-como-o-guarani-criou-dificuldades-ao-brasil-com-superioridade-numerica/
Para citar: Vinícius Guerreiro. “Coluna do Vinícius Guerreiro: como o Guarani criou dificuldades ao Brasil com superioridade numérica”. Rede Esportiva, 13 de setembro de 2020. Disponível em https://redeesportiva.com.br/acervo/coluna-do-vinicius-guerreiro-como-o-guarani-criou-dificuldades-ao-brasil-com-superioridade-numerica/