Opinião: Carta sobre a paixão e o futebol

Ao treinador do Brasil, dirigentes do país, jornalistas e torcedores

Cada vez mais me pergunto sobre o papel da imprensa no mundo esportivo. Há muitos anos vejo a grande mídia brasileira exaltando o futebol moderno e cobrando gestão empresarial dos clubes. Longe de mim ser contra a modernização dentro de campo. É evidente que o esporte mudou e hoje tem um padrão tático e uma intensidade inimagináveis em outros tempos. Entram aí estudos, avanços tecnológicos e, principalmente, o processo de capitalização do esporte.

Ao mesmo tempo em que o jogo mudou (pra melhor ou pior, sem entrar nesse mérito), algumas coisas aborrecem o país Brasil. Pra ficar no local, pois é o nosso alvo, falamos do clube Brasil. O Xavante sempre se gabou da construção popular na sua história, tendo inclusive a ajuda da torcida pra erguer seu estádio. Mas, atualmente, cobra 60 reais o ingresso para os jogos na Segunda Divisão brasileira. Isso é fruto da modernização que tanto cobramos. A administração empresarial exige o maior lucro. E quem perde com isso? O povo, que não tem mais dinheiro pra ir aos estádios.

Aí entra a maior crítica. Quem ama uma empresa? Qual empresa move multidões em qualquer canto do mundo? Nenhuma. E quem ama um clube de futebol? Acho que é impossível de contabilizar. O futebol é a maior paixão nacional e é, muitas vezes, a única alegria do dia do cidadão comum. É essa paixão que move o futebol. E em que lado ficamos: empresas, lucros, publicidade, maiores salários, ou do lado dos sinalizadores, torcedores, vibração? Não há uma resposta correta. O certo seria conciliar os dois, mas como fazer isso?

Sobre a imprensa, dois anos atrás escrevi sobre o Inimigo Imaginário criado por Rogério Zimmermann. Sim, o “inimigo” era a imprensa. O torcedor, pela paixão, em grande parte, comprou esse discurso. Podemos culpar alguém pela paixão? Ainda no ano passado, Rogério Zimmermann, depois de conseguir a classificação no sufoco no Campeonato Gaúcho, inflamou os torcedores gesticulando e apontando pra cabine da rádio que seria a “inimiga”. Os torcedores cercaram essa cabine e gritaram contra a rádio. Situação que nenhum profissional gostaria de passar. Tenho pra mim que ali Rogério respirava aliviado, porque se a classificação não viesse, seria ele o alvo da ira dos torcedores.

A atitude cínica do treinador quase se virou contra ele, mas esse gol contra o Passo Fundo em 2016 salvou o trabalho, que vem sendo muito positivo, apesar de ter enfrentado momentos difíceis nos últimos dois anos. Quase todos contornados. Eis que agora, após mais uma crise e um resultado negativo em 2017, o “inimigo” passou a ser o torcedor.

Sim, Rogério. O torcedor, após o jogo, não sai com a mulher. Ele vai pro quarto, sem camisa ou com, comendo sanduíche ou não, porque ele tá triste. Porque ele é apaixonado. Pelo futebol. Pelo Brasil. Por tudo que tu, os jogadores, dirigentes e torcedores representam. Foi ele que vibrou contigo aquelas vitórias em Brasília e em Fortaleza. São eles que tu representa, no fim de tudo.

Aquele que ficou brabo com a imprensa ano passado, pela paixão, tá triste contigo agora. E essa tristeza vai passar quando as vitórias voltarem. Tu sabe disso, nós sabemos disso. O mínimo que se pede é respeito. O torcedor, no fim, tem o perdão. Ele age passionalmente e tá no direito disso. Cabe a imprensa saber lidar com a paixão e fazer o papel dela, seja qual for esse papel. E a pergunta que fica: qual o papel de Rogério nisso tudo?

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